Associação afirma que procurador-geral não deve atuar em procedimentos relacionados a fatos nos quais é citado; Conselho Superior do MPF também deu dez dias para que Gonet se manifeste sobre mensagens ligadas a Daniel Vorcaro.
A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) pediu que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, se declare impedido de atuar em procedimentos relacionados ao caso Banco Master nos quais ele próprio é mencionado.
O pedido foi apresentado neste sábado (5) e acrescenta um novo capítulo à tensão entre a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República (PGR) em torno de um relatório produzido a partir de dados obtidos nas investigações da Operação Compliance Zero.
O documento da PF reúne informações extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e contém referências não apenas ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), mas também ao próprio Gonet.
Paralelamente, o Conselho Superior do Ministério Público Federal (CSMPF) abriu um procedimento interno para analisar as menções ao procurador-geral. Gonet recebeu prazo de dez dias para apresentar esclarecimentos.
O que pedem os delegados da Polícia Federal
Em nota, a ADPF defendeu que Gonet se declare impedido e deixe de praticar atos nos procedimentos relacionados especificamente aos fatos em que seu nome aparece.
A entidade também pediu o arquivamento de um Procedimento de Controle Externo da Atividade Policial instaurado pela PGR para analisar a atuação da Polícia Federal na elaboração do relatório.
Segundo a associação, os policiais responsáveis pelo documento cumpriram uma determinação judicial e não poderiam ser responsabilizados por executar a ordem. A ADPF argumenta que, caso a PGR considere irregular a determinação que levou à produção do relatório, o questionamento deveria ocorrer no próprio processo perante o Supremo.
A associação classificou como potencialmente intimidatório o efeito do procedimento sobre os investigadores e defendeu que todos os fatos revelados pela Operação Compliance Zero sejam apurados, independentemente das autoridades mencionadas.
O pedido da entidade representa uma posição institucional da associação e não significa que o impedimento de Gonet já tenha sido reconhecido.
Conselho do MPF dá dez dias para Gonet se explicar
Além da manifestação dos delegados, Gonet passou a enfrentar uma análise dentro do próprio Ministério Público Federal.
O Conselho Superior do MPF abriu procedimento interno para examinar as referências ao procurador-geral encontradas no material relacionado a Vorcaro.
O caso está sob relatoria do conselheiro Francisco de Assis Sanseverino, subprocurador-geral da República. Gonet terá dez dias para se manifestar e, posteriormente, poderá ser ouvido pelo Conselho.
A instauração desse procedimento, por si só, não representa conclusão de que Gonet tenha cometido irregularidade. Trata-se de uma etapa destinada à análise dos fatos e à obtenção de esclarecimentos.
O que aparece nas mensagens relacionadas a Gonet
Parte da controvérsia envolve conversas entre Daniel Vorcaro e o advogado Ciro Soares, ex-defensor do Banco Master. Segundo o relatório da Polícia Federal tornado público pelo ministro André Mendonça, Soares teria atuado como intermediário de contatos envolvendo Gonet e o banqueiro.
Em março de 2025, por exemplo, Soares enviou a Vorcaro uma fotografia ao lado de Gonet e informou que o procurador-geral queria falar com ele. Registros posteriores indicam a realização de chamadas telefônicas.
Em outra sequência, o advogado encaminhou mensagens que atribuiu a Gonet. Os textos faziam referências pessoais, a uma viagem a Londres e a um encontro envolvendo charuto e uísque Macallan.
O material também contém conversas sobre a possibilidade de um filho de Gonet participar de uma viagem a Londres.
É importante fazer uma distinção: parte das mensagens não aparece como comunicação direta entre Gonet e Vorcaro, mas como conteúdo encaminhado ou atribuído ao procurador-geral pelo advogado Ciro Soares. Por isso, a autoria e o contexto dessas comunicações devem ser tratados como elementos da apuração, e não como conclusões definitivas.
PGR questionou investigação determinada por André Mendonça
A crise ganhou força depois que Gonet defendeu a nulidade do aprofundamento da investigação que revelou informações envolvendo Alexandre de Moraes e o próprio procurador-geral.
Em manifestação encaminhada ao STF, Gonet sustentou que André Mendonça teria ultrapassado os limites de sua competência ao determinar o aprofundamento das investigações sem pedido do Ministério Público ou iniciativa da autoridade policial.
Segundo o procurador-geral, uma eventual investigação envolvendo Moraes deveria ser encaminhada ao presidente do STF, Edson Fachin, para posterior apreciação pelo plenário da Corte.
Foi nesse contexto que a PGR instaurou o procedimento para analisar a atuação dos policiais na elaboração do relatório — iniciativa agora contestada pela associação dos delegados.
Entenda a sequência do caso
A Operação Compliance Zero investiga suspeitas de fraudes financeiras relacionadas ao Banco Master.
A partir da análise do celular de Daniel Vorcaro, a Polícia Federal produziu um relatório contendo informações e mensagens que mencionam autoridades.
André Mendonça retirou o sigilo do relatório, permitindo que seu conteúdo se tornasse público. Gonet posteriormente questionou a legalidade do aprofundamento dessa investigação.
A PGR abriu então procedimento para analisar a atuação da PF. A ADPF reagiu, defendendo os investigadores e pedindo que Gonet se declare impedido nos procedimentos referentes aos fatos em que aparece.
Ao mesmo tempo, o Conselho Superior do MPF abriu sua própria análise e concedeu prazo para que o procurador-geral apresente esclarecimentos.
O que acontece agora?
O próximo passo no Conselho Superior do MPF é aguardar a manifestação de Gonet dentro do prazo estabelecido. O procurador-geral também poderá ser ouvido antes de uma análise posterior do procedimento pelos integrantes do Conselho.
Já o pedido apresentado pela ADPF coloca formalmente em discussão a permanência de Gonet na condução de procedimentos ligados aos fatos nos quais seu nome aparece.
Até o momento, o pedido da associação não equivale a afastamento de Gonet do cargo de procurador-geral da República, nem representa uma conclusão sobre eventual responsabilidade do chefe da PGR.
O caso deverá continuar produzindo repercussões institucionais porque envolve simultaneamente Polícia Federal, Ministério Público Federal e Supremo Tribunal Federal, além das investigações relacionadas ao Banco Master.
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Fontes e créditos: informações apuradas a partir do relatório e das manifestações públicas repercutidas por CNN Brasil, Agência Brasil e Veja. Com informações complementares da CNN Brasil.
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