UE suspende carne brasileira e Brasil tenta reverter bloqueio

UE suspende carne brasileira e Brasil tenta reverter bloqueio

Restrição europeia atinge carnes bovina, suína e de frango, além de outros produtos de origem animal; governo brasileiro negocia retomada das exportações e setor reforça mecanismos de rastreabilidade.

A União Europeia suspendeu a entrada de produtos brasileiros de origem animal em seus 27 países-membros. A medida, em vigor desde quinta-feira (3), atinge carnes bovina, suína e de frango, além de pescados, ovos e mel.

O bloqueio ocorre porque as autoridades europeias consideram insuficientes as garantias apresentadas pelo Brasil sobre o cumprimento das regras do bloco para utilização de antimicrobianos na produção animal.

A decisão não decorre da identificação de carne contaminada ou imprópria para consumo. A discussão está relacionada aos mecanismos utilizados para controlar e comprovar quais medicamentos são empregados durante a criação dos animais.

O governo brasileiro contesta a medida e negocia com as autoridades europeias para tentar restabelecer as exportações.

Por que a União Europeia suspendeu as importações?

A União Europeia possui regras específicas para o uso de antimicrobianos na produção de alimentos de origem animal.

Esses medicamentos são importantes no tratamento de infecções, mas o bloco europeu estabelece restrições, entre elas a proibição de determinadas substâncias para estimular o crescimento dos animais.

Também existem limitações ao emprego, na produção animal, de antimicrobianos considerados importantes para o tratamento de determinadas infecções em seres humanos.

O problema apontado pelas autoridades europeias está na capacidade brasileira de oferecer garantias suficientes de que essas regras são cumpridas durante todo o processo produtivo.

Por isso, a discussão envolve não apenas medicamentos, mas também a rastreabilidade dos animais.

O que é a rastreabilidade?

A rastreabilidade permite acompanhar o histórico de um animal durante sua vida.

Em um sistema individualizado, é possível registrar informações como local de nascimento, propriedades pelas quais o animal passou, tratamentos recebidos e estabelecimento onde ocorreu o abate.

Esses dados ajudam autoridades sanitárias e compradores internacionais a verificar a origem do produto e o cumprimento das exigências estabelecidas pelo país importador.

O Brasil possui sistemas de controle sanitário e rastreamento, mas a adequação às novas exigências europeias aumenta a necessidade de acompanhamento individual e documentação de toda a cadeia.

Esse é um desafio especialmente importante para a pecuária bovina, porque um animal pode passar por diferentes propriedades e permanecer anos no sistema produtivo antes de chegar ao frigorífico.

Carne brasileira foi considerada imprópria?

Não.

Esse esclarecimento é importante porque a palavra “bloqueio” pode levar à interpretação de que foi detectada contaminação na carne brasileira.

Não foi esse o motivo apresentado pela União Europeia.

A suspensão está relacionada às garantias de cumprimento das regras europeias sobre antimicrobianos e aos mecanismos utilizados para demonstrar essa conformidade.

Os produtos continuam sendo comercializados normalmente no Brasil e exportados para outros mercados que mantêm suas autorizações.

Impacto pode chegar a US$ 2 bilhões

A restrição preocupa o setor exportador porque pode afetar até US$ 2 bilhões por ano em vendas brasileiras de produtos de origem animal.

A carne bovina merece atenção especial.

Embora a União Europeia não seja o maior comprador em volume da carne produzida no Brasil, o mercado europeu tem importância estratégica por adquirir cortes de maior valor agregado.

Isso significa que simplesmente direcionar esses produtos para outro país nem sempre resolve o problema.

Cada mercado possui hábitos de consumo, exigências sanitárias e preferência por cortes diferentes.

O bloqueio também ocorre em um momento no qual o Brasil procura ampliar mercados para sua produção agropecuária.

Frango e mel podem avançar primeiro

Há, entretanto, uma sinalização positiva para alguns setores.

Técnicos europeus realizaram uma auditoria no Brasil entre 24 de agosto e 4 de setembro para avaliar os controles relacionados às cadeias produtivas de aves e mel.

As primeiras avaliações foram consideradas favoráveis aos mecanismos brasileiros, segundo informações divulgadas após a inspeção.

Isso abre a possibilidade de que esses produtos consigam retornar ao mercado europeu antes da carne bovina.

A retomada, entretanto, ainda depende dos procedimentos formais da União Europeia. Portanto, uma avaliação positiva da auditoria não significa liberação automática das exportações.

No caso do frango, a adaptação também tende a ser mais rápida devido ao ciclo produtivo relativamente curto das aves.

Situação da carne bovina é mais complexa

Para os bovinos, a solução pode levar mais tempo.

As exigências envolvem o acompanhamento do animal durante todo seu ciclo de vida. Como um bovino pode levar entre dois e três anos para chegar ao abate, mudanças implementadas agora podem demorar para produzir animais com todo o histórico registrado de acordo com os novos critérios.

O setor brasileiro vem trabalhando em protocolos de rastreabilidade para demonstrar o cumprimento das exigências.

A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) informou que empresas associadas habilitadas a exportar para a União Europeia aderiram ao protocolo privado criado pelo setor.

O desafio será transformar essas medidas em garantias consideradas suficientes pelas autoridades europeias.

Brasil admite medidas de reciprocidade

Além das negociações técnicas, a questão ganhou dimensão diplomática.

O governo brasileiro manifestou preocupação com a decisão e indicou que poderá avaliar medidas de reciprocidade caso as negociações não produzam uma solução satisfatória.

A prioridade, entretanto, continua sendo buscar uma saída negociada.

Representantes do agronegócio brasileiro também criticaram a restrição, enquanto a União Europeia sustenta que a medida está relacionada ao cumprimento de suas regras regulatórias e sanitárias.

O episódio ocorre em um momento de aproximação comercial entre Mercosul e União Europeia, o que aumenta a relevância política da disputa.

A suspensão pode reduzir o preço da carne no Brasil?

Não é possível afirmar isso neste momento.

Caso produtos inicialmente destinados à Europa permaneçam no país, pode ocorrer aumento da oferta no mercado doméstico ou redirecionamento para outros compradores internacionais.

Mas o preço pago pelo consumidor depende de diversos fatores, incluindo oferta de animais, demanda, custos de produção, câmbio e volume efetivamente redirecionado.

Portanto, o bloqueio europeu não significa automaticamente carne mais barata nos supermercados brasileiros.

O que acontece agora?

O governo e o setor produtivo terão de demonstrar à União Europeia que os sistemas brasileiros atendem às exigências relacionadas ao controle de antimicrobianos.

Para aves e mel, o resultado final da auditoria europeia será uma etapa importante para uma possível retomada das vendas.

A carne bovina enfrenta um caminho mais complexo por causa da necessidade de rastrear os animais durante um ciclo produtivo muito mais longo.

Enquanto as negociações continuam, exportadores também terão de administrar os produtos que deixarem de seguir para a Europa e buscar mercados alternativos.

A duração do bloqueio dependerá principalmente da avaliação das autoridades europeias sobre as garantias apresentadas pelo Brasil.


Fonte: Agência Brasil, com informações complementares de autoridades brasileiras e da União Europeia.

Linha Direta News — informação com contexto e responsabilidade.

Gostou desta matéria? Compartilhe com outras pessoas e acompanhe o Linha Direta News para receber as principais notícias do Brasil e do mundo. Assine também nossa newsletter para acompanhar as próximas atualizações.


Descubra mais sobre Linha Direta News

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta