Análise: Preço do Petróleo Ultrapassa US$ 100 Após Ataques no Mar Vermelho em Meio a Tensões Regionais e Narrativas de Conflito

O preço do barril de petróleo do tipo Brent registrou um aumento de 6%, atingindo US$ 101,00, na sequência de ataques atribuídos aos Houthis do Iêmen contra navios na região do Mar Vermelho. Este cenário, que reflete uma potencial escalada de tensões no Oriente Médio, tem sido contextualizado por algumas análises como parte de uma "guerra" ou "agressão" de Estados Unidos e Israel contra o Irã. No entanto, é importante notar que esta caracterização direta de um conflito militar aberto ou oficialmente declarado não é uma conclusão universalmente confirmada por fontes oficiais, mas sim uma interpretação em meio a disputas geopolíticas e sanções na região.

A escalada no Oriente Médio, com o alegado fechamento do Estreito de Bab el-Mandeb pelos Houthis para navios da Arábia Saudita, agrava a situação do comércio global de combustíveis, com potencial de repercutir na inflação mundial.

Essa alta recente nos preços ocorre em um momento em que o mercado de petróleo já acumulava cinco meses de redução na oferta. Essa redução anterior foi atribuída, por certas análises, ao que se descreve como o início de uma "agressão" dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro, que teria levado ao fechamento do Estreito de Ormuz, por onde transita 20% do comércio marítimo de combustíveis.

Anteriormente, após a assinatura de um memorando de entendimento entre Irã e EUA em 17 de junho, o preço do barril de petróleo havia caído para um mínimo de US$ 70 em 1º de julho, o menor valor desde o início das tensões. Desde então, o preço do Brent já havia aumentado 42% antes do recente pico.

Impacto Econômico e Logístico

Ticiana Álvares, diretora técnica do Instituto de Estudos Estratégicos em Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), explicou à Agência Brasil que o fechamento da rota do Mar Vermelho para a Arábia Saudita tem um impacto "bem relevante".

Segundo Álvares, a Arábia Saudita utilizava oleodutos até o Mar Vermelho como alternativa para o escoamento de petróleo, dadas as restrições no Estreito de Ormuz. Com o fechamento de Bab el-Mandeb, essa opção se torna inviável.

A especialista ressaltou que a Arábia Saudita é um dos maiores produtores globais de petróleo e que o bloqueio ao país árabe deve afetar a oferta do produto para os EUA, que o utilizam para produzir combustíveis como gasolina e diesel.

Um fechamento mais abrangente do Estreito de Bab el-Mandeb teria impacto significativo na Europa, pois grande parte dos produtos asiáticos destinados ao continente passa pelo Mar Vermelho, elevando os custos de frete.

A Agência Internacional de Energia (AIE) estima que cerca de 10% do comércio marítimo de petróleo passa pelo Estreito de Bab el-Mandeb e pelo Mar Vermelho.

Rodolfo Queiroz Laterza, diretor do Instituto de Altos Estudos de Geopolítica, Segurança e Conflitos (GSEC), afirmou à Agência Brasil que a Arábia Saudita enfrentará perdas econômicas "substanciais".

Laterza alertou que isso "vai agravar as cadeias logísticas de abastecimento no mundo e afetar inúmeras economias de vários países, principalmente aqueles dependentes da importação de petróleo e derivados".

Cenário Geopolítico e a Aliança Houthi-Irã

Danny Zahreddine, professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas, avalia que o que ele descreve como a "guerra entre Irã e EUA" entra em uma nova etapa com o fechamento da passagem de Bab el-Mandeb pelos Houthis.

Zahreddine observou que "quando os americanos apertam os iranianos, eles vão apertar mais ainda os EUA e seus aliados", e que o fechamento de Bab el-Mandeb "vai gerar um choque ainda maior na distribuição do petróleo".

Os Houthis mantêm uma aliança com o Irã, enquanto a Arábia Saudita é historicamente aliada dos EUA e rival regional de Teerã.

O professor Zahreddine salientou que não apenas a Arábia Saudita será afetada, mas também todo o transporte que passa pelo Mar Vermelho e Canal de Suez, seja da Europa ou dos EUA, ou da Ásia (como China, Malásia, Indonésia, Singapura) com destino à Europa ou EUA.

A rota via Bab el-Mandeb, conhecido como "Portal das Lágrimas", é significativamente mais curta, tornando o impacto de seu bloqueio evidente e generalizado.

Desdobramentos no Conflito Iemenita

Para o historiador Laterza, o que ele descreve como a "guerra de Israel e EUA contra o Irã" gerou desdobramentos em conflitos anteriormente "congelados", incluindo a guerra no Iêmen.

Hostilidades no Iêmen, que haviam sido encerradas por um frágil acordo mediado pela China em 2022, foram reativadas. Ataques aéreos sauditas ao porto de Sanaa (Iêmen) dias antes provocaram esta resposta firme dos Houthis, que possuem capacidade de negar o uso do Mar Vermelho.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br


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