Em um cenário hipotético ou projeção futura, o Brasil é vislumbrado encerrando a Paralimpíada de Paris (França), em 2024, entre as cinco potências do esporte adaptado pela primeira vez. Independentemente de resultados ainda a serem confirmados, o país já soma 462 pódios no maior evento paradesportivo do planeta, uma trajetória que teve seu marco inicial há 50 anos. Foi em 1976 que Robson Sampaio de Almeida e Luiz Carlos da Costa conquistaram a primeira medalha brasileira na história: a prata no lawn bowls, uma modalidade hoje extinta e semelhante à bocha.
Resgate da Memória e Homenagem aos Pioneiros
As medalhas históricas estiveram expostas no Centro de Treinamento Paralímpico, em São Paulo, em uma homenagem simbólica. A data de 6 de agosto remete ao dia de 1976, em Toronto (Canadá), quando Robson e Luiz Carlos inauguraram a contagem de pódios brasileiros em Paralimpíadas. Noêmia Almeida, sobrinha de Robson, enfatiza: "É o resgate de uma história que não era contada. Se hoje temos tudo isso [no esporte paralímpico], com televisão, entrevistas, esse momento de comemoração, é porque alguém lá no passado lutou para que isso acontecesse."
A Trajetória de Robson Sampaio de Almeida: Fundador e Visionário
Criada como filha pelo medalhista, Noêmia acompanhou de perto a jornada do tio/pai. Robson, falecido em 1987, foi o fundador do Clube do Otimismo, no Rio de Janeiro, em 1958. A instituição, que oferecia abrigo e reabilitação para pessoas com deficiência sem recursos, foi criada com a indenização de um acidente sofrido três anos antes, nos Estados Unidos, que o deixou paraplégico após ter a coluna comprimida por um rolo em uma fábrica de papéis.
Noêmia relata os desafios da época: "Naquela ocasião, não tinha recursos como hoje. O paradesporto não era uma política pública, então, tinha que sair batendo de porta em porta. Ele [Robson] batia na porta de deputados, de quem estava no poder, para ajudar a comprar uniforme, passagens, para representar o Brasil lá fora."
A Dupla Histórica: Robson e Luiz Carlos no Lawn Bowls
Luiz Carlos, carinhosamente conhecido como "Curtinho", foi um dos atendidos pelo Clube do Otimismo, onde estabeleceu uma forte amizade com Robson. Atualmente com 79 anos, Curtinho está em tratamento de Alzheimer.
Paulo Robson de Almeida, outro sobrinho de Robson, descreve a "dupla dinâmica": "Eles sempre formaram essa dupla dinâmica no esporte. Quando se formaram os primeiros times de basquete [em cadeira de rodas], meu tio foi o primeiro cestinha brasileiro, e o Luiz Carlos acompanhou. Foi um grande escudeiro do Clube do Otimismo. Ele [Luiz Carlos] também trabalhava com técnicas para recuperação das rodas das cadeiras. Nas disputas internacionais, dava sempre o apoio técnico para conserto."
Embora tivessem ido aos Jogos de Toronto para competir no basquete em cadeira de rodas, Robson e Luiz Carlos foram convidados para o lawn bowls – uma prática permitida na época, que possibilitava a participação em múltiplas modalidades. A dupla brilhou no Etobicoke Lawn Bowling Club, garantindo a prata, apenas superados pelos australianos Eric Magennis e Bruce Thwaite. Os britânicos David Avis e Michael McCreadie completaram o pódio.
Paulo Robson complementa: "O Robson jogava o boliche tradicional, com a pista de madeira. E fazia vários strikes. Então, ele já tinha certa prática para segurar a bola. Mas o Luiz Carlos foi de primeira."
O Desenvolvimento do Paradesporto no Brasil: Do Pioneirismo à Estrutura Atual
A partir da medalha de 1976, a história brasileira no movimento paralímpico passou por transformações significativas. O Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) foi fundado em 1995 e, três anos depois, foi integrado ao Sistema Nacional do Desporto pela Lei 9.615 (Lei Pelé). Essa inclusão permitiu ao CPB acessar recursos da Lei 10.264 (Lei Agnelo Piva), de 2001, que destina 2,7% dos recursos de loterias federais ao financiamento esportivo, com 15% desse percentual direcionados ao paradesporto.
Em 2016, como legado dos Jogos do Rio, surgiu o Centro de Treinamento Paralímpico (CT Paralímpico), uma das maiores estruturas esportivas do país. Este centro não só impulsionou os resultados do Brasil em Paralimpíadas, mas também se consolidou como um polo de formação, oferecendo iniciação esportiva gratuita em modalidades adaptadas para jovens de 7 a 17 anos com diversas deficiências.
O Legado Contínuo e a Realização de um Sonho
Noêmia conclui, conectando o passado ao presente: "Ele [Robson] lutava para as empresas admitirem [pessoas com deficiência], que tivessem uma política de acreditar que aquela pessoa era capaz de trabalhar. A gente teve nele o exemplo desse espírito, e o esporte foi a consequência. O que estamos comemorando é a realização de um sonho. A luta dele é a de todos nós."
Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br
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