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A obra relata pressões políticas, desafios pessoais, e a ética de trabalho, além da cumplicidade de funcionários e da dificuldade dos governos em enfrentar o poder das big techs.
Destaca também as tentativas de alinhamento com regimes autoritários e a priorização do lucro sobre responsabilidade social. O lançamento do livro foi alvo de tentativas de censura da Meta, que o acusou de difamatório, mas a polêmica o alçou ao topo dos mais vendidos.
Mark Zuckerberg, o fundador e CEO da Meta (antigo Facebook) não quer que você leia esse livro.
Escrito por Sarah Wynn-Williams que fez carreira na alta cúpula do Facebook entre 2011 e 2017, o livro Careless People: A Story of Where I Used to Work (Pessoas descuidadas: uma história do lugar onde eu trabalhava, em tradução livre, ainda inédito no Brasil) apresenta os bastidores nada convencionais da empresa comandada Zuckerberg e narra detalhes sobre decisões que redirecionaram acontecimentos mundiais nas duas últimas décadas, além de expor os responsáveis por tomá-las e sustentá-las.
O título da obra é uma referência irônica à alta cúpula da empresa, inclusive seu fundador e CEO, Mark Zuckerberg. O leitor entende melhor essa escolha ao ler a citação de abertura, retirada de O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald: “Eles eram pessoas descuidadas, Tom e Daisy, destruíam coisas e pessoas e depois recuavam para dentro de seu dinheiro ou de sua vasta negligência, ou qualquer que fosse a força que os mantinha juntos, e deixavam que outros limpassem a bagunça que haviam feito”.
Sarah sustenta que Zuckerberg e Sheryl Sandberg — a número 2 no comando, de 2008 a 2022 — ocuparam exatamente esse papel dentro da empresa. Suas memórias cobrem desde viagens em jatos particulares e encontros com líderes mundiais até relatos de misoginia, censura, uso abusivo de dados de usuários e padrões duplos de ações e reações nos bastidores, de acordo com conveniências do momento.
Os reflexos desse mundo impositivo recaíram diretamente sobre sua vida pessoal e incluíram os desafios e humilhações da maternidade em um ambiente de trabalho sob pressão extrema, enquanto Sheryl Sandberg incentivava mulheres a “se jogarem” (lean in) na cultura corporativa da empresa.
Ela relata pedidos explícitos de apoio político feitos por líderes mundiais, a brutal ética de trabalho americana — que a levou a responder e-mails enquanto estava em trabalho de parto — e situações em que foi casualmente alertada de que poderia acabar presa, como se isso fosse apenas parte do seu trabalho, como representante do Facebook junto a governos autoritários ou instáveis.
Segundo a autora, as redes sociais passaram a ocupar um papel central na vida de praticamente todo o planeta. E quanto mais poder seus líderes acumulam, menos responsáveis parecem se tornar. As consequências desse desequilíbrio recaem sobre bilhões de pessoas, com impactos diretos em eleições, governos e na ascensão de ideias perigosas.
Termos como ganância fria e irrefletida atravessam a leitura, assim como a cumplicidade profunda de funcionários que mergulharam alegremente em um sistema que governos têm enorme dificuldade de enfrentar, sobretudo nos Estados Unidos.
Natural da Nova Zelândia, formada em direito, com passagens pela ONU e pela diplomacia de seu país em Washington, Sarah acreditava que o Facebook precisava de alguém capaz de conduzir o diálogo com líderes mundiais. Após insistência e vários “nãos”, conseguiu criar uma vaga para si com esse propósito e iniciou uma escalada de poder que a levou ao cargo de diretora de Políticas Públicas.
O emprego dos sonhos, no entanto, revelou-se um verdadeiro pesadelo. “Os líderes do Facebook não são as pessoas que eu esperava que fossem”, afirma Sarah. O tratamento recebido de seus gestores e os confrontos internos, especialmente com Joel Kaplan, o nº 3, vice-presidente de Políticas Públicas Globais, acabaram por selar seu destino na empresa.
A autora descreve Zuckerberg como um nerd da tecnologia, com pouco interesse real por política, até perceber como a campanha de Trump usou o Facebook para vencer a eleição de 2016.
Em vez de se alarmar com a disseminação de desinformação e suas consequências no mundo real, ele teria enxergado ali uma oportunidade pessoal de se candidatar a presidente dos Estados Unidos em 2020. A autora também revela tentativas da empresa de se alinhar às exigências da China na esperança de reverter o banimento da plataforma no país e conseguir milhões de seguidores — o que não aconteceu até o momento.
O que ela narra, enfim, a partir de sua experiência pessoal, supera qualquer exercício de imaginação sobre as relações de poder quase interplanetárias das big techs à frente de redes sociais. Não por acaso, a Meta tentou barrar a circulação do livro, sob a justificativa de que a obra seria “falsa e difamatória”, por meio de medidas restritivas acionadas antes e durante seu lançamento.
Os advogados do grupo alegaram que a ex-funcionária violou, com seu livro, cláusulas de non-disparagement (não difamação) previstas em seu acordo de rescisão. Um árbitro de emergência de Chicago decidiu a favor da Meta e ordenou que a autora não promovesse nem concedesse entrevistas sobre Careless People, enquanto a disputa avançava no tribunal.
Um porta-voz da empresa chegou a declarar publicamente que a obra jamais deveria ter sido publicada. Ainda assim, o volume continuou a ser vendido normalmente e a polêmica acabou ajudando a colocá-lo entre os mais vendidos de 2025.
O relato de Sarah amplia a sensação de perigo sobre o rumo que o mundo vem tomando quando empresas como o Facebook concentram tamanho poder. Responsabilização, fazer a coisa certa ou agir em prol de um bem maior, conclui a autora, claramente não figuram entre as prioridades da empresa.
Ainda que admita sua própria cumplicidade em momentos-chave do que narra Sarah, o livro permanece como uma história perturbadora de ganância e imprudência assustadoras.
Fonte: CNN Brasil
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