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Estudo de 1992 encontrou ausência de espermatozoides em 14 homens submetidos a uma condição específica, mas evidências atuais não permitem concluir que o uso cotidiano de roupas íntimas de poliéster cause infertilidade.

A afirmação de que usar cueca de poliéster pode deixar um homem infértil voltou a chamar atenção nas redes sociais. A história tem origem em um estudo científico real, mas a conclusão exige cautela: o experimento não avaliou simplesmente homens usando cuecas comuns no cotidiano.

Publicado em 1992 na revista científica Contraception, o estudo acompanhou 14 homens considerados férteis que utilizaram continuamente, durante 12 meses, um suspensório de poliéster envolvendo a região escrotal.

Segundo os resultados relatados pelo pesquisador Ahmed Shafik, todos os participantes desenvolveram azoospermia — condição caracterizada pela ausência de espermatozoides detectáveis no sêmen — após uma média de aproximadamente 140 dias.

O resultado chama atenção, mas não significa que vestir uma cueca de poliéster tenha o mesmo efeito.

O que realmente aconteceu no estudo

Os participantes utilizaram o suspensório de poliéster durante o dia e a noite por um ano. Durante esse período, os pesquisadores acompanharam características do sêmen, volume dos testículos, diferença entre temperatura retal e testicular, hormônios reprodutivos e outros parâmetros.

O estudo também investigou cargas eletrostáticas produzidas pelo atrito entre o poliéster e a pele.

Depois da retirada do suspensório, os pesquisadores continuaram acompanhando os voluntários e relataram recuperação da produção de espermatozoides. Portanto, mesmo nas condições específicas daquele experimento, o efeito observado foi reversível.

O problema aparece quando esse resultado é transformado na afirmação simplificada de que “cuecas de poliéster causam infertilidade”.

Essa conclusão não é sustentada pelas evidências disponíveis.

Estudo pequeno e condições muito específicas

Há limitações importantes. O trabalho envolveu apenas 14 participantes e utilizou um dispositivo envolvendo diretamente o escroto, usado continuamente durante um período prolongado.

Isso é bastante diferente da utilização habitual de uma roupa íntima.

Além disso, os pesquisadores propuseram que cargas eletrostáticas geradas pelo poliéster poderiam estar relacionadas às alterações observadas. Essa hipótese, porém, não foi confirmada de maneira independente como mecanismo responsável por infertilidade em homens que usam roupas sintéticas normalmente.

Outros trabalhos do mesmo período chegaram a detectar diferenças nas cargas eletrostáticas produzidas por tecidos. Em um experimento com 21 homens, por exemplo, roupas de poliéster produziram valores maiores do que peças de algodão. Isso, isoladamente, não demonstra que essas cargas causem infertilidade.

O que diz uma revisão científica publicada em 2026

Uma revisão científica publicada em 2026 na revista Translational Andrology and Urology analisou estudos sobre roupas íntimas, temperatura escrotal, qualidade do sêmen e fertilidade masculina.

Os autores consideraram o experimento de 1992 interessante para levantar uma hipótese científica, mas destacaram que seus resultados não estabelecem que tecidos sintéticos usados no cotidiano provoquem infertilidade.

A revisão aponta que ainda faltam estudos controlados em humanos capazes de comparar adequadamente diferentes tipos de tecidos e demonstrar um efeito clinicamente relevante sobre a fertilidade.

Também existem pesquisas observacionais comparando homens que usam roupas íntimas mais largas ou mais justas. Algumas encontraram diferenças em determinados parâmetros do sêmen, enquanto outras não identificaram efeito significativo sobre o tempo necessário para conseguir uma gravidez.

Ou seja, o conjunto das evidências é muito mais complexo do que a ideia de que determinado tecido, sozinho, poderia funcionar como uma espécie de contraceptivo masculino.

Calor é uma preocupação mais bem estabelecida

Há, porém, um aspecto da discussão que possui fundamento biológico mais consistente: a temperatura.

Os testículos ficam no escroto justamente porque a produção adequada de espermatozoides depende de uma temperatura inferior à temperatura central do organismo.

Elevações da temperatura escrotal podem prejudicar temporariamente a espermatogênese, processo responsável pela formação dos espermatozoides.

Por isso, pesquisadores investigam há décadas fatores capazes de elevar a temperatura dos testículos, incluindo exposição ocupacional ao calor e determinadas condições que dificultem a dissipação térmica.

Isso não significa, entretanto, que uma determinada cueca vá necessariamente causar infertilidade.

Então é preciso abandonar cuecas de poliéster?

Com as evidências científicas disponíveis atualmente, não há base suficiente para afirmar que homens que usam normalmente cuecas de poliéster ficarão inférteis.

Também não é correto apresentar o experimento de 1992 como prova de que roupas íntimas sintéticas funcionem como método contraceptivo.

Para homens que estão tentando ter filhos, preocupações com fertilidade devem ser avaliadas individualmente. Alterações persistentes no espermograma ou dificuldade para conseguir uma gravidez precisam de avaliação médica, e não de conclusões baseadas apenas no tecido da roupa íntima.

O estudo antigo é real e seus resultados foram incomuns. O que não é sustentado pela ciência é transformar um experimento pequeno, realizado em condições muito específicas, em uma regra geral sobre o uso cotidiano de poliéster.

Fontes e créditos: estudo de Ahmed Shafik publicado na revista Contraception em 1992 e indexado no PubMed; estudo sobre tecidos e potenciais eletrostáticos publicado em Andrologia; revisão científica “Garment fit, scrotal thermoregulation, and male fertility outcomes”, publicada em 2026 na Translational Andrology and Urology.

Linha Direta News — Informação com contexto e responsabilidade.

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